CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS
"Quando todos concordam, todos correm o risco de estarem errados." John Kenneth Galbraith
"Toda unanimidade é burra." Nelson Rodrigues
"Toda generalização é injusta, inclusive esta." Paráfrase de Millôr Fernandes
Ao observar a história em seus mais diversos campos, podemos verificar o aparecimento dos fenômenos de divergência e convergência.
No campo da tecnologia, nossa praia, isso não foge à regra.
Durante o nascimento de uma nova tecnologia, é natural o fenômeno de divergência. Afinal, nada é mais livre que a imaginação. Esse período é conhecido como "tempestade cerebral".
Alguns exemplos:
O primeiro sistema de distribuição de energia elétrica criado por Edison era baseado em corrente contínua. Tesla divergiu de Edison e criou um sistema de distribuição em corrente alternada.
As divergências entre Edison e Tesla recaíram até no campo pessoal: os cientistas recusaram-se a receber um prêmio Nobel conjunto, pelas pesquisas de física aplicada no campo da energia elétrica.
O sistema de Tesla provou ser mais adequado para o abastecimento das cidades, começou em 16 Hertz (embora a iluminação cintilava muito), a Europa veio uniformizar o padrão de distribuição de corrente alternada em 50 Hertz e a América do Norte, em 60 Hertz. (Não nos esqueçamos das disputas comerciais...).
No entanto, para a transmissão de energia à grandes distâncias em MAT - Muito Alta Tensão, o sistema em corrente contínua provou ser mais vantajoso, pois as linhas de transmissão são mais simples e a perda de energia por radiação eletromagnética é menor que nos sistemas em corrente alternada.
Nos primórdios do cinema, Edison optou pela exploração da novidade em máquinas de exibição individual, através de um pequeno visor conhecido como "kinetoscope", enquanto os Irmãos Lumière partiram para a exibição pública do "cinematographe" através de grandes telas.
Embora o cinema coletivo de Lumière tornou-se popular no mundo inteiro, o computador moderno privilegia à assistência de filmes de forma individual.
QUANDO A CONVERGÊNCIA DÁ CERTO.
A convergência vai bem quando une o útil (comodidade) ao agradável (redução de custo).
Alguns exemplos:
Caneta-tinteiro, canivete suíço, rádio-vitrola, rádio-relógio-despertador, multiprocessador de alimentos, multifuncionais em escritórios: copiadora, fax, scanner, impressora "tudo-em-um", celulares faz-tudo, etc, etc.
O exemplo da rádio-vitrola é emblemático. A RCA fabricava rádios. A Victor fabricava "Victrolas". Ambos aparelhos usavam plugues, cordão de força, gabinetes de madeira, amplificadores, botões e alto-falantes.
O casamento era inevitável e trouxe vantagens com a "racionalização de materiais e sistemas". Nasce a RCA-Victor e o primeiro rebento é o "dois-em-um", que tocava rádio ou vitrola em um único aparelho por quase a metade do preço.
UMA LUTA MAL RESOLVIDA.
Hoje nos deparamos com uma batalha que se arrasta há décadas: a indústria de eletrônica de consumo versus indústria de computadores.
O computador é um "convergente compulsivo": transforma tudo em reles dados, não importa o que é processado: música, eletrocardiograma, conversa telefônica, imposto de renda, etc. Em breve vão digitalizar o cheiro. A profecia do saudoso tele-mestre-cuca Zeloni, autor dos memoráveis molhos de macarronadas, será cumprida.
As perguntas que ficam no ar são as seguintes: teremos casamento ou autofagia? A TV engole o computador ou o computador engole a TV?
Craig Mundie, da Microsoft, criticou a criação de padrões de TV digital baseados nos paradigmas de transmissão linear. Afinal, a transmissão em "pacotes" (não-lineares) ocupam menos espaço no escasso espectro radioelétrico e são adequadas para as "TVs de alta capacidade de processamento de imagens" , em outras palavras, poderosos computadores...
Essa opinião não é compartilhada por todos. Há um paralelo interessante na história que indica um outro caminho. As observações são de um tecno-filósofo da IBM.
Quando o motor elétrico foi inventado era um bem muito caro. Tão caro que podia ser acoplado à vários utensílios domésticos. (Quem se lembra do motorzinho da máquina de costura que "turbinava" a pedaleira da vovó?).
Hoje o motor elétrico está presente em barbeadores, secadores, liquidificadores, máquinas de lavar, cada qual em seu lugar.
O mesmo acontece com os computador: ele está presente em forma individual e reduzida no forno de microondas, no rádio-relógio, no toca-discos laser, etc.
Pode ser que o modelo atual de TV "linear" analógica, digital ou híbrida, sobreviva nos sistemas a cabo. Não posso imaginar o mesmo para as transmissões via rádio, pelo menos em grande escala, pois o finito espaço espectral rádio-eletrico será objeto de grandes disputas comerciais.
Termino esse arrazoado com uma curiosidade da óptica: uma lente "convergente" (daquelas usadas pelos filatelistas) converge uma imagem até o ponto focal ótimo, além desse ponto, a divergência volta a acontecer...
Escrito por Jonas às 08h18
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