A estratégia do guarda-chuva
Custo industrial do conversor digital-analógico para TV estimado em 300 reais.
Esta é a primeira projeção de custo real (com ou sem lucro industrial?) sem a ajuda de Papai Noel, estimada por uma grande empresa brasileira produtora de bens de consumo, proprietária das marcas Gradiente e Philco (no passado, Telefunken, Polivox, Quasar, etc, etc).
Além de custos adicionais de logística (transporte, armazenamento e distribuição), custos (e lucros) de revenda, custos de financiamento (quando um bem comprado em 12 meses pode dobrar o seu valor), há de se considerar que a arquitetura do SBTVD-T ainda não está totalmente delineada. O trabalho dos pesquisadores brasileiros ainda não está concluído.
Esperamos que o conversor brasileiro não se reduza ao padrão nipo-japonês, mas a adequação do modelo às especificações tupiniquins vão encarecer o produto final.
Alguém arrisca qual será o custo de compra do conversor quando chegar finalmente às lojas?
Diferentemente da estratégia de vários países europeus (como a Inglaterra e Itália) que partiram para um modelo "popular" de TVD subsidiada, o qual beneficia imediatamente o público de baixa renda e permite uma transição rápida, partimos para o modelo "americano" (embora aTV seja japonesa) de exploração comercial de uma novidade.
Mas afinal, no que se resume esse modelo de exploração comercial?
Esse modelo é conhecido como "estratégia do guarda-chuva".
Quando um produto "sai do forno", este é lançado na categoria "de luxo" e visa atingir o topo da pirâmide sócio-econômica.
Essa estratégia permite o rápido retorno dos investimentos aplicados no desenvolvimento da novidade.
À maneira que o mercado se satura em cada faixa de mercado, o produto sofre uma redução de custo (é depenado), a fim de que possa ser alcançado pelas faixas sócio-econômicas menos favorecidas.
Conclusão: o sentido do alvo de mercado vai do topo para a base da pirâmide social.
Bem, essa estratégia pode não dar tão certo quanto possa se esperar. Explico porquê.
A TV aberta no Brasil é vista através de aparelhos populares de 14 a 20 polegadas, os quais são suficientes para exibir imagens em definição "padrão" (como o sistema analógico PAL-M).
O Centro de Pesquisas Tecnológicas de Campinas ouviu esse consumidor, a fim de saber o que era esperado da TV digital. Eis as principais expectativas: Imagens sem chuviscos, fantasmas e maior oferta de programação. Notar que quando a recepção é "chuviscada", a TV digital já não funciona...
Tudo indicava pela opção européia, devidamente "tropicalizada", o que acabou não acontecendo.
A "estratégia do guarda-chuva" pode funcionar desta vez?
Diferentemente do advento da TV em cores em 1972 , quando não havia aparelhos de videocassete nem o serviço de UHF nas grandes cidades, o cenário presente é de grande concorrência.
A questão-chave é que a TV aberta não está mais sozinha para abocanhar este mercado.
Quem é capaz de comprar TVs de telas grandes, a fim de desfrutar as vantagens da alta definição de imagens, hoje tem várias meios de aquisição de programação em alta-definição. Aqui vão alguns deles: recepção via satélite, cabo, microondas, internet banda larga, gravadores de discos HD, etc.
Cada modelo de exploração de TV acima citado possui um conversor diferente, de modo que o conversor de TV aberta provavelmente não atingirá o mercado das faixas mais altas da pirâmide social como o esperado.
Isso significa que os custos industriais vão demorar a cair.
Por essas e outras é que acredito na TV analógica-digital híbrida. A sobrevivência das emissoras abertas está no aumento de receita através de programação digital sob encomenda.
Na opinião de algums americanos é mais possível que a TV aberta nos EUA desapareça do que a transição digital seja concluída.
A alternativa dNTSC é muito interessante e não deveria ser desprezada pelos radiodifusores brasileiros, nem pelo governo e pesquisadores, afinal é melhor assistir "TV chuviscada" do que nada...
Escrito por Jonas às 08h00
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