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TVD: Darwin e a Indigestão Digital.

Esta semana resolvi filosofar um pouco sobre a trajetória da TV, confrontando-a com algumas idéias antagônicas.

Darwin dizia que as espécies que se ajustavam aos desafios dos novos tempos, sobreviviam, enquanto aquelas que não se ajustavam, pereciam.

Parece que o celacanto, o tubarão, o jacaré, a tartaruga, entre outros, não foram informados à respeito.

Contrapondo às idéias de Darwin, lembrei-me da máxima da antologia filosófica-futebolística-brasileira:

"Em time que está ganhando não se mexe".

A corrente filosófica "em-cima-do-muro" diz que é muito difícil enxergar a verdade, ela provovelmente está no meio, e é a última a aparecer.

Como é impossível saber quem está com a razão para cada nova situação, precisamos de aguardar o veredicto da história.

A televisão nasceu do rádio. O rádio forçou o cinema  a falar. Quando o rádio virou televisão (incialmente foi chamado de rádio com imagem), o cinema tornou-se colorido.

Durante a conformação do padrão de TV NTSC, propuseram 1000 linhas, tela panorâmica e imagem em cores. A idéia do governo era apenas de popularizar o "rádio com imagem", como principal meio de difusão de informações, de modo que todas essas almejadas qualidades tiveram de esperar.

Pelo menos era um rádio com imagem em preto-e-branco, em 525 linhas, que "falava em FM de alta fidelidade".  Não sei bem quando o cinema contra-atacou, ao usar além da trilha sonora óptica, várias trilhas magnéticas (multi-estereofonia).

Soube que Raymond Dolby ganhou um "Oscar" da Academia de Cinema pelas suas pesquisas para reduzir o ruído magnético e aumentar a fidelidade sonora das películas.

Dolby não pôde dizer que "faltavam-lhe  palavras para agradecer" na entrega do "Oscar", porque o "Oscar Técnico" é um evento reservado e não é televisionado.

O som sempre foi um problema para a TV, principalmente em programas ao vivo.

Nos velhos tempos, a TV Excelsior caprichava. O som de seu teatro, palco de muitos festivais, tinha uma acústica refinada, projetado especialmente para TV.

A estereofonia na TV chegou apenas na década de 1980 (mas ainda é um item elitizante). Foi bem aproveitada pelo DVD (cinema, lógico).

Poucas emissoras usam o sistema estéreo da Zenith. A TV Manchete usava-o bastante. Acho que agora, somente a MTV e algum canal de TV a cabo (SAP), especialmente para os puristas que gostam de ouvir a voz original dos atores.

O som sempre foi um estorvo na produção de televisão...

No fim da década de 1940, não por acaso, os televisores usavam pequenos tubos cônicos de telas circulares, muito parecidos com àqueles dos radares (sobras de guerra).

A primeira providência dos fabricantes de televisores para incomodar a concorrência do cinema foi aumentar o tamanho da tela, além de torná-la cada vez mais quadrada.

Os fabricantes de vidro diziam que essa exigência era impossível. Os fabricantes de cinescópios partiram para um híbrido. A tela era de vidro e o funil, metálico.

Não demorou muito para que os fabricantes de vidro mudassem de idéia. Já na década de 1950, os cinescópios mais populares eram de 21 e 24 polegadas e deflexão em 114 graus, fabricados totalmente em vidro. 

No fim da década de 1960, a Philips (que além da Corning, também fabrica vidro) apresentou um cinescópio de contorno retangular.

Com a chegada da televisão em cores, tentaram viabilizar o cinema 3-D com lentes polarizadas... "esticaram a tela" com os formatos "Cinerama" em 70 mm (que não vingou por que era muito caro) e uma versão "opticamente comprimida" em 35 mm, o Cinemascope.

(Como se pode notar, as técnicas de compressão de imagens são mais antigas do que se pensa... money, money...).

Millor Fernandes diz que a TV é mais popular que o cinema, pois, se as telas são menores, as poltronas são maiores.

Dentro do próprio campo da eletrônica de consumo, o cinescópio sofre a concorrência de outros tipos de displays. Os fabricantes de cinescópios contra-atacam e lançam telas cada vez maiores e mais planas. Recentemente, a LG-Philips anunciaram o primeiro tubo de imagem plano, com uma deflexão virtualmente em 180 graus.

Continua abaixo...



Escrito por Jonas às 10h57
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Continuando...

Bem, agora vamos à TVD.

Os japoneses sempre foram "fissurados" pela captura de imagens. Foram os primeiros no mundo a cristalizarem a HDTV, embora analógica.

Do lado da América do Norte, parece que o público estava conformado com o que tinha, embora desejasse uma TV sem fantasmas. (Nós, os tupiniquins, uma TV sem chuviscos).

Os fantasmas que impulsionaram a indústria de TV nos EUA eram dois: a concorrência da televisão japonesa e a fome de espectro do telefone celular.

O argumento dos radiodifusores era preservar o espectro para a viabilização da TV de alta definição - HDTV.

No entanto, hoje há uma contenda entre os radiodifusores e os operadores de cabo, a fim de estender a obrigação de transporte de imagens, não apenas para o vídeo primário, mas reservar 6 MHz para a manutenção da programação analógica e mais outros 6 MHz para a multiprogamação digital.

45 milhões de lares ainda recebem a programação via cabo analógico - nessa área não há pressa pela transição digital.

Os operadores de cabo satirizam os radiodifusores ao dizerem que eles não querem um "grande compromisso", e sim "uma grande concessão".

A exigência do transporte analógico do vídeo primário dos radiodifusores, e a obrigação de transporte da multiprogração digital ultrapassam a capacidade de digestão dos operadores de TV a cabo, de modo que seriam necessários investimentos na ordem de 115 bilhões de dólares para viabilizar tais reivindicações.

Parece que os radiodifusores americanos se desencantaram com a alta definição ao perceberem que a HDTV elitizou-se.

O apelo da multiprogramação, embora também tenha um modelo de negócios complicado, faz mais sentido.

Ironicamente, apesar dos esforços de vários governos para acelerar a transição da TV aberta, é através da TV via cabo que a digitalização está avançando.
 
De qualquer maneira, salvaram (por enquanto) as concessões de 6 MHz da televisão aberta, mas uma outra parte do espectro de TV foi cedida para os serviços de emergência. Há uma suspeita fundamentada a transição da TV digital pode aniquilar a TV aberta..

Voltemos agora ao povo. O que ele desejava era apenas uma TV sem fantasmas. Agora o fantasma se chama transição da TV Digital terrestre.

Os debates entre os congressitas americanos continuam. O atual programa de subsídios para a compra de conversores ainda aguarda a arrancada.

Serão os subsídios, suficientes para atender todos os prejudicados com o apagão analógico ?

A fome de espectro dos poderosos grupos de telecomunicações não acabou. Darwin estaria com a razão?

Money, money...

Certa vez, disse que a transição da TV aberta, analógica para digital, seria um grande desafio à civilização.

Seria o modelo híbrido, "O Cavalo de Tróia", um atalho seguro para alcançá-la?



Escrito por Jonas às 10h56
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