O Fantasma do Espectro
Ao longo dos artigos publicados pelo blog SBTVD PAL-M, venho a afirmar, baseado em opiniões de especialistas e bebedores de cervejas, sobre o risco do desaparecimento (ou drástica redução) do serviço de TV aberta aberta nos EUA (tal como ela é).
O que acontece com a TV aberta nos EUA, em maior ou menor escala, acontece com o mundo.
Nem todos sabem, a NAB - Associação Nacional de Radiodifusores, é mais antiga que o próprio FCC - Comitê Federal de Telecomunicações, órgão regulador das telecomunicações nos EUA.
O desenvolvimento da Radiofonia e Radiodifusão de Imagens (TV aberta) passaram por longos períodos de bonança, isto é, dispunham de espaço radioelétrico (espectro) suficiente para o desenvolvimento de inovações no setor.
O rádio começou operando em AM e desenvolveu-se em FM assinado, FM aberto, FM estéreo e quadri-estéreo, AM estéreo, sem problemas.
A TV aberta passou por longos períodos de experimentação. O primeiro padrão de televisão comercial criado nos EUA, ainda em uso, é o padrão NTSC, em 525 linhas, largura de canal de 6 MHz, em preto-e-branco, adotado logo após o fim da II Guerra Mundial.
Nos fins dos anos 1940, iniciam-se as primeiras transmissões experimentais em cores, no sistema CBS, cuja largura de faixa exigiu a alocação de canais fora da faixa de VHF (canais 2 a 13), utilizada pelo sistema NTSC, ainda em preto-e-branco.
A CBS acabou perdendo a guerra da TV em cores para a RCA.
A RCA desenvolveu um sistema de TV compatível com o legado de TVs em preto-e-branco, dispensou a duplicação de transmissores e canais durante essa transição. Esse sistema "inspirou" os franceses e alemães.
Outra causa que prejudicou a CBS, foi o esforço de Guerra na Coréia. A empresa foi proibida de fabricar TVs em cores, pois certa matéria prima conhecida como "mumetal", empregada na fabricação desses televisores também era usada na fabricação de equipamentos militares.
De qualquer maneira, a TV aberta se desenvolvia com espaço suficiente. A faixa destinada à TV aberta ia do canal 2 ao canal 83. A TV analógica norte-americana ainda ganhou o som estéreo, legenda oculta e, recentemente, transporte auxiliar digital, para fins educativos e cinema sob encomenda (dNTSC).
Com o tempo, surge a telefonia celular de primeira geração (AMPS - American Mobile Phone System), e com ela, a TV aberta perde a faixa do canal 70 a 83. Outra parte perdida, canais 61 a 70, será destinada aos serviços de comunicações de emergência.
Essa compressão de espaço vem complicando a vida dos Radiodifusores.
A faixa de UHF na Europa foi usada para a migração dos antigos sistemas britânico, alemão e francês para o formato unificado "Eurovisão", em 625 linhas, em preto e branco.
Infelizmente, com o advento da TV em cores, houve um retrocesso com a criação de dois sistemas: alemão e francês (PAL e SECAM). Nos tempos de Guerra Fria, os alemães ocidentais e orientais viam a programação do vizinho, respectivamente, em preto-e-branco...
Na decáda de 1980 houve uma malograda tentativa européia de reunificação televisiva, com a criação de um sistema único, ainda analógico em 16 x 9: o sistema MAC (teve algum sucesso via satélite).
Afinal, a TV digital no sistema DVB parece que vem para ajudar a reunificação televisiva da Europa.
Na América, algo curioso acontece na Bolívia: em VHF, a TV opera em 525 linhas (padrão americano) e em UHF, opera em 625 linhas (padrão europeu).
Por sorte, hoje há grande oferta de receptores de televisão "trinorma" que operam tanto em NTSC (America do Norte, Japão e Coréia), PAL-M (Brasil e Laos) e PAL-N (Argentina e outros países do Cone Sul).
A tão-esperada unificação da TVD na América é um sonho que esvoaçou-se: os EUA, Canadá e México optaram pelo sistema ATSC, o Uruguai em DVB e o Brasil em ISDB-T modificado. Aguardamos novas decisões...
Mas, há um paradoxo no ar: o avanço das técnicas digitais parecem ameaçar o desenvolvimento e a própria sobrevivência da TV aberta.
A fome pelo espectro aumenta cada vez mais.
Os Radiodifusores vêem com muita preocupação uma nova modalidade de comunicação sem fio, que deve ocupar os canais vagos destinados ao serviço de TV analógica: a Philips está desenvolvendo dispositivos "sensorizam" canais vagos de TV para uso em serviços de comunicação móvel.
Outra preocupação diz respeito à questão da poluição eletomagnética: o excesso de serviços de comunicação sem fio (ou via rede elétrica) podem saturar a ionosfera, de modo a provocar o efeito de "modulação cruzada" e tornar certas modalidades de radiocomunicão inviáveis.
Isso aconteceu no passado com o "Efeito Luxemburgo": uma potentíssima emissora européia de ondas longas causava distorções de reflexão na ionosfera e provocava o efeito de "linha cruzada" em radiofonia.
Outra questão é o prejuízo pela interferência em redes de telemetria médica, além dos riscos de saúde pela exposição de certos campos eletro-magnéticos. Particularmente, quanto menor o comprimento de onda utilizado, maior o potencial de risco aos organismos vivos.
Mas, voltemos ao fantasma em pauta.
A TV digital vem para ajudar a reorganizar o espectro radioelétrico.
Muito provavelmente, quando acontecer o "apagão analógico", não haverá mais canais vagos entre emissoras, e também, não haverá espaço para desenvolvimentos futuros.
Apesar de tudo, os formatos "broadcasting", usados nos sistemas de TV digitais "convencionais" também consomem muito espaço espectral. A IPTV, TV via protocolo internet, poderá detonar tudo isso. Esse formato, ainda em desenvolvimento consome muito menos espaço para o serviço de TV aberta. Em um canal de alta definição convencional cabem 20 canais no formato IPTV,
Ironicamente, o sistema PAL-M, em uso no Brasil, e os demais sistemas analógicos em vias de extinção, podem ser usados para o desenvolvimento da IPTV em "multiplexação temporal".
De qualquer maneira, no futuro, se ainda existir a TV digital aberta tal como ela é, haverá grandes dificuldades pela falta de espaço para implantar os novíssimos sistemas de TV "multi-sensuais" (no melhor sentido da expressão).
Para alcançar tais metas, vão ter de se compatibilizar com os "antigos" sistemas digitais ATSC, DVB e ISDB-T, tal qual o sistema idealizado pela RCA nos anos 1950, ou então, só serão viáveis em sistemas de TV por assinatura...
Para saber mais:
History of Modification of the Ionosphere by Radio Waves
http://ion.le.ac.uk/heating/history_of_rf_heating.html
Escrito por Jonas às 09h45
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