ESQUENTANDO OS TAMBORINS
Estamos a oito dias da estréia da TV digital terrestre no Brasil.
Lá se vão quase dez anos, quando assistimos à uma apresentação dos estudos brasileiros sobre o assunto, na sucursal paulista da SET- Sociedade de Engenharia de Televisão, no bairro do Brooklyn.
A apresentação foi conduzida pela Diretora de Engenharia da TV Globo Liliana Nakonechnyj .
A TV digital via satélite (recebida via antena "mini-pizza") dava os seus primeiros passos, o DVD - disco digital de vídeo - mal acabara de ser lançado.
Esses dois primeiros rebentos digitais eram frutos de um acordo de engenheiros de 18 países, quando em 1993 criaram um padrão mundial para armazenamento e transporte de imagens de televisão, no formato digital MPEG-2 Moving Picture Experts Group.
A empresa em que trabalhavamos, a Gradiente, estava planejando participar do nascente mercado de TV digital via satélite.
Participamos, à maneira que era possível, de um curso interno sobre DBS - satélites digitais para TV, ministrado pelos professores da Escola Politécnica da USP, entre eles, Guido Stolfi, que demonstrou como era possível realizar o "milagre" da digitalização e compactação de sons e imagens de televisão.
Em nossa empresa havia um departamento de "Engenharia Avançada" liderado por A. Shpitz, que acompanhava o desenvolvimento da indústria de eletrônica de consumo pelo mundo afora.
Através dessas pesquisas, ficamos sabendo dos fracassos da TV em alta definição mundial. Do lado dos EUA, pelo veto americano ao padrão japonês analógico MUSE; do lado Europeu pelo fim do consórcio que deu origem ao padrão híbrido D2MAC (imagem analógica em 9x16, som digital) em favor de um padrão totalmente digital, com o nascimento do consórcio DVB.
O consórcio DVB criou padrões para a TV via satélite e Cabo (adotados no Brasil) e TV digital terrestre DVB-T, devidamente ajustado para as condições domésticas de todos os seus participantes (Europa, Oceania, Africa e Ásia).
Dentro dos EUA, havia uma batalha travada entre várias empresas que criaram quatro sistemas de TV digital terrestre diferentes.
A FCC (a Anatel de lá) queria que o mercado decidisse pelo melhor, como aconteceu com o advento do AM estéreo.
Temerosas em perder muito dinheiro, as empresas formaram a "Grande Aliança", aproveitando o que cada sistema tinha de melhor; o governo americano não teve outra alternativa senão de aprovar o que viria a ser o padrão de televisão digital avançada ATSC.
Até a ocasião da apresentação da SET, sabíamos que a escolha natural do Brasil seria o padrão americano, em função da estrutura distribuição de frequências de radiocomunicação nas Américas e dos legados do padrões de TV "M" e "N" (NTSC e PAL) em canais de TV de seis megahertz.
Estados Unidos, Canadá, México, Argentina e Coréia pronuniciaram-se em favor do padrão ATSC.
Durante a apresentação da SET, soubemos do fracasso dos testes do padrão europeu DVB-T nos EUA e Canadá (por que seria ?).
A controvérsia entre o padrão americano e europeu é assunto corrente até hoje nos fóruns especializados de TVD.
O fato novo apresentado pela Enga.Liliana era a iniciativa pela criação de um terceiro padrão.
A Coréia e Japão já utilizavam o sistema analógico americano NTSC.
O mercado de TV americano era dominado pelos televisores fabricados por esses dois Países.
Mas o Japão frustrou as expectativas americanas. Partiu para um padrão próprio.
No início dos anos 2000, o Brasil testou esses três padrões: americano, europeu e japonês. Trabalharam em conjunto a Universidade Mackenzie, TV Cultura, SET, entre outros órgãos.
O resultado dos testes apontaram o padrão japonês ISDB-T como o mais robusto de todos.
Em 2005, por iniciativa do governo Lula, a comunidade científica e industrial foram convocadas a pesquisar o estado das técnicas digitais, a fim de apresentar uma alternativa nacional para a TV digital aberta.
Nascia o SBTVD, Sistema Brasileiro de TV Digital. Em menos de um ano, houve ganhos e aperfeiçoamentos nas técnicas de modulação, sistema operacional (software) próprio: o Ginga e a adoção do sistema de compressão de imagens MPEG-4, pela primeira vez incorporado num sistema de TV aberta.
Um sistema nipo-brasileiro.
Nesse ínterim, a China criou o quinto padrão mundial, com sistemas de modulação e compressão totalmente nacionais. Um em cada seis TVs do mundo estão na China. A iniciativa chinesa livrou-a de pagar muitos royalties...
Nos últimos anos, surge a IPTV - televisão via protocolo internet, via rede telefônica. É possível que apareça uma versão IPTV via ondas de rádio. O protocolo de comunicação IP, criado durante a Guerra Fria, dá sinais de plena vitalidade. (Um padrão mundial?).
Vários Países vizinhos estão em fase de decisão pela adoção de sistemas de televisão domésticos. O Uruguai optou pelo sistema DVB, a Argentina vai reconsiderar sua decisão inicial pelo ATSC.
Cada vez fica mais difícil decidir, ninguém sabe quais serão os rumos da televisão...
O cenário regulatório atual é de "divergência na convergência".
O que vai vingar, o que vai virar fumaça?
Há dinheiro para comprar tanta novidade?
Quanto ao Brasil, optamos por seguir a lição de Geraldo Vandré:
"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."
Escrito por Jonas às 09h45
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