TV tarja preta
Como colocar um retângulo dentro de um quadradro?
Quem tem uma boa "memória visual" pode imaginar o resultado dessa pergunta.
Esse problema, se levado ao campo da geometria, é resolvido "inscrevendo-se" o retângulo dentro do quadrado. Para tanto, é preciso reduzir a área do retângulo, de modo que este preserve a sua proporção original. figura 1 fotoblog Solução Gráfica do Problema Quadrado 1:1 Retângulo 2:1 Retângulo inscrito no quadrado http://negrjp.fotoblog.uol.com.br/photo20080517063211.html
Essa abertura "geométrica" do Blog SBTVD PAL-M vem para explicar os diversos problemas das incompatibilidades surgidas com as diversas "proporções geométricas", conhecidas no meio técnico como "relações de aspecto" das imagens produzidas pela TV e indústria cinematográfica.
Baseado no primeiro exemplo gráfico, percebe-se que alguma propriedade das imagens será perdida no processo de "conversão de relação de aspecto".
O desenvolvimento (e perda de um padrão universal) da "relação de aspecto" deve-se principalmente à concorrência entre o cinema e a televisão. No ponto de partida da TV, esta "adotou" a mesma relação de aspecto do cinema "noir", isto é, 4 x 3. Afinal, o maior legado de conteúdo da TV vinha da "sétima arte".
Para sobrepujar a concorrência da TV, o cinema adotou novas relações de aspecto, ganhando características panorâmicas. Mas o filósofo Millor Fernandes sintetizou bem a concorrência entre a TV e o Cinema: O cinema tem a tela grande e a poltrona pequena. Em casa, acontece ao contrário...
Com o a chegada da "Advance TV" nos anos 1980, a telinha dá uma "espichada horizontal" de 30%, a fim de acompanhar a concorrência cinéfila. Essa nova proporção da TV (16 x 9) é conservada até hoje nos modernos sistemas digitais.
figura 2 fotoblog Relações de Aspecto do Cinema e TV http://negrjp.fotoblog.uol.com.br/photo20080517063403.html
Como se pôde notar, os problemas das "conversões de relação de aspecto", em função da concorrência, continuam.
No início dos anos 1970, as primeiras produções cinematográficas "panorâmicas" passaram a ser exibidas na TV.
Percebia-se que num filme de faroeste, tal como o "duelo de cowboys", cada oponente ficava postado nos extremos da tela de cinema, e, na redução para o formato de TV, não era possível observar a ação de nenhum deles...
Para evitar esse problema, convertiam-se as películas Cinerama/Cinemascope no formato de TV (4 x 3), a serem rodadas nos equipamentos de telecine de três maneiras:
- Deslocava-se a imagem da película ao ator ou ao centro de atenção, mas o movimento brusco provocava a decomposição da imagem em vários quadros (uma espécie de efeito "espalhamento de cartas de baralho");
- O filme cinemascope era "refilmado" em 16 mm, tomando-se o cuidado de capturar a personagem mais importante da cena;
- Outra "solução" inseria o formato Cinemascope no meio da tela de TV. Sobrava espaço sem informação na parte superior e inferior.
Para evitar que algum louco aumentasse a tensão do regulador de voltagem (transformadores ajustáveis, comuns na época de redes elétricas precárias) de modo a compensar a virtual de falta de altura da tela, aplicava-se uma vinheta na parte superior e inferior da tela, como se fossem as cortinas do cinema...
As modernas técnicas de adaptação de relação de aspecto são igualmente problemáticas. Mas, como todo filme de cinema acaba sendo exibido na telinha, os diretores de fotografia (sabedores desse destino...) limitam o enquadramento dos atores e objetos de cena das atuais produções, de modo a não dificultar tanto a inevitável conversão futura. Conclusão: nem o cinema aproveita totalmente as suas peculiaridades...
Quem viu a última copa de futebol na Europa, percebeu que, embora as imagens fossem geradas no formato 16 x 9, houve um favorecimento de enquadramento de imagem no padrão antigo (4 x 3), para garantir "perfeita compreensão ao jogo" aos bilhões de telespectadores que aindam usam aparelhos de TV analógica. Algo parecido aconteceu no advento da TV em cores. Em função do legado de milhões de aparelhos em preto-e-branco, os times oponentes usavam uniformes de cores claras e escuras.
Outros exemplos
figura 3 fotoblog Técnicas "civilizadas" de conversão http://negrjp.fotoblog.uol.com.br/photo20080517063627.html
Estragos adicionais
fotoblog figura 4 Efeito "Engordamento" http://negrjp.fotoblog.uol.com.br/photo20080517063913.html
Efeito de "engordamento" (expansão de largura), muito comum em lojas de eletrodomésticos, quando são exibidas imagens 4x3 em telas de cristal líquido e plasmas, na relação de aspecto 16x9
fotoblog figura 5 Efeito "Emagrecimento" http://negrjp.fotoblog.uol.com.br/photo20080517064008.html
O efeito de "emagrecimento" (compressão de largura) acontece durante a abertura de filmes em cinemascope pela TV convencional, de modo que os títulos e créditos não sejam perdidos pelas limitações do formato 4 x 3..
Melhora de Resolução vertical em DVDs e TVs "trinorma".
Para quem gosta de cinema e quer ter em casa sensação semelhante, recomendo o formato "letterbox", no qual surgem duas faixas pretas na tela, uma superior e outra inferior. É curioso notar que vários anúncios comerciais na TV usam esse formato e são poucos os telespectadores que percebem a repentina mudança da relação de aspecto!
Alguns poderão argumentar que essa adaptação provoca perda na resolução vertical. Para eles, sugiro ajustarem seus DVDs e televisores para o padrão argentino PAL-N ( desde que disponíveis), tanto no tocadiscos como no televisor.
Nesse formato, (PAL-N) há um salto resolução de 525 para 625 linhas. A imagem fica mais nítida e a "pulsação" em 25 quadros fica parecida com o cinema (24 quadros por segundo). Não recomendamos tal procedimento para os proprietários dos antigos TVs 4 x 3 a plasma, pois esses aparelhos podem manchar a tela. Para os TVs de cristal líquido (LCD) não há restrições. Os TVs de tubos de imagens vão aumentar a cintilação, algo que pode desagradar (causar sonolência ou enjôos) à pessoas mais sensíveis.
Degustação de 16 x 9 em Programação Normal de TV
Acredito que seria interessante a emissoras "arriscarem" mais na forma de apresentação "cinematográfica", principalmente quando o conteúdo (novelas, shows e futebol) é produzido em HDTV. Certa vez, a Globo exibiu belíssimas imagens panorâmicas do Rio de Janeiro, numa novela vampiresca exibida às 7 da noite, além de um show musical de Maria Rita. Assisti também a um documentário da pioneira da aviação Ada Rogatto na TV Cultura, numa tevezinha preto-e-branco de 5 polegadas, e gostei. . Lembro-me de um programa diário do SBT, de Serginho Groissman, apresentado no formato 16 x 9, além da série semanal do Superboy.
Seria interessante saber da opinião da juventude e de Silvio Santos sobre os resultados obtidos. Mas, acho que a coisa se complicou quando passaram a vender os primeiros TVs de Plasma (4x3), sensíveis à manchas em caso de superexposição...
Se, pelo menos, a cada primeira tomada de imagens de um show ou novela, ou de uma "panorâmica" de um estádio de futebol, além de aspectos táticos dos jogos fossem apresentando em "tarja preta", os telespectadores poderiam degustar o novo formato, entender a sua importância e tornarem-se mais "motivados" em comprar receptores para a Nova TV.
Agradecimentos
Agradeco ao Prof. Guido Stolfi, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, pela cessão das fotos.
O Prof. Stolfi tem um acervo fantástico de matérias (e cursos) sobre TV digital. Convidamos os leitores deste blog à visitá-lo.
Site do Prof. Stolfi http://www.lcs.poli.usp.br/~gstolfi/
"Dentro de três anos não teremos mais aparelhos de TV, apenas computadores com telas de alta qualidade e programação digital, recebendo ABC, NBC, HBO, BBC e qualquer coisa que pudermos imaginar" (Andrew Lippman - Diretor, Mit Media Lab - 1989). "Nós teremos Televisão digital no mesmo dia que tivermos a máquina de anti-gravidade" (Joe Flaherty, vice-presidente de Tecnologia da CBS, 1989). Entenda passo-a-passo o desenvolvimento da TV digital, em power-point, nessa magnífica apresentação do Prof. Stolfi.
(Para quem tem banda larga - Documento de 6,6Mb). http://www.lcs.poli.usp.br/~gstolfi/PPT/HDTV03.pps
Escrito por Jonas às 07h14
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